Sobre a morte de Michael Jackson

 

Sempre achei muito piegas ficar rememorando alguém apenas porque ela morreu, nunca fui desse tipo, embora todos artistas que eu goste de fato; com exceção da Madonna, minha mais “recente” descoberta, estejam mortos. Comecei a gostar deles e eles já estavam mortos, portanto não faço parte do time que começa a lembrar de artistas porque “eles já não falam mais”. Contudo, a morte de Michael Jackson me abalou sim.

Já fazia algum tempo que não ouvia Michael Jackson, na verdade ouvi há uns dois meses por ocasião da minha fase “Nostalgia precoce: Anos 80”. Mas o Michael nunca foi alguém que fez de fato minha cabeça. Porque então que a morte dele tem me abalado já que não gostava tanto dele assim e nem sou do tipo que compra CDs porque o cara morreu?

A morte do Michael me abalou porque, embora tenha de fato parado para refletir sobre quem e o que ele fez (que de fato faz sentido ele estar sendo tão louvado no final de tudo), eu parei pra perceber que estou ficando mesmo velha, sim, estou começando a perder as referencias da minha infância. O Michael é um dos ícones dos anos 80, quando lembro dos meus tempos de criança vem logo uma música do Michael nas minhas memórias. Era ao som de Beat it que eu brincava e quando ligava a TV estava sempre passando notícias, clipes, lançamentos do Michael Jackson no final do Fantástico, etc. etc...

Saber que o Michael morreu representa a morte de um período, é essa a sensação que me causou a notícia...

Lembrar de um tempo onde minha maior preocupação era desfazer a casa de bonecas que eu tinha arrumado na sala de casa é reviver, mesmo que apenas nos sentimentos, um período aprazível e ter agora, em dias de correria e preocupação, bons momentos! Se esse tempo é, pelo menos para mim, passado com a trilha sonora do astro pop, só posso pensar na tristeza subjetiva que me causa a morte de Michael...

Então que se danem os sensacionalismos, eles existem e sempre existiram, vou curtir agora meu luto e ouvir Bellie Jean até doer o ouvido da vizinhança....

 

Semíramis Corsi



Escrito por Semíramis Baudelaire às 15h22
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Este texto tem dois anos, faz aniversário por volta destes dias inclusive... Como os Rolling Stones estão bem presentes nesta minha fase, mais talvez que em outras, resolvi desenterar o texto.

Ele fala sobre, digamos, o que é DEUS pra mim!

 

"Os tais de Rolling Stones"

Os Tais...


Estes dias ouvi algo que me deu vontade de cair na risada...
Eu estava no "Bom Trabalho" esperando sentadinha para fazer exame médico para minha primeira admissão em um emprego.
Ao meu lado dois caras conversavam e um disse assim para o outro:
- Aqueles tais de Rolling Stones são uma droga, não tem nada de bom naquilo, umas músicas chatas!
O outro respondeu:
- É, e falaram tanto nos caras que parece até que eles são Deus.

Bom... gosto, realmente não se discute, se lamenta somente, mas o que o Rolling Stones significam na vida de várias gerações de pessoas isso realmente é de se pensar. E toda mídia sobre a vinda deles no Brasil tem esse significado: IMAGINE QUANTAS PESSOAS CHORARAM AO OUVIREM SUAS CANÇÕES. IMAGINE QUANTAS PESSOAS SONHARAM AO OUVIREM SUAS CANÇÕES. IMAGINEM QUANTAS PESSOAS AMARAM OUVINDO SUAS CANÇÕES E MAIS... Imagine você aos 62 anos pulando com a mesma vitalidade, força, esperança e sonho de quando você tinha 20.
Realmente, para mim... Deus não existe como pessoa, mas como bem, amor e vitalidade... e é isso que o ROCK e uma das maiores bandas de todos os tempos significam para mim... ROLLING STONES pra mim é DEUS, porque significa sonho, amor, força, esperança e acima de tudo... VONTADE DE SER FELIZ!
Concepções são concepções, gostos são gostos, mas se Deus é vida... Deus é Mick Jagger (e que se foda se vc está me achando uma idiota, as pessoas precisam aprender que ROCK é uma forma de liberdade e alegria para muita gente... e JAMAIS será apenas música de adolescentes revoltados e PIOR, pessoas burras. "Cult" (na verdade odeio tremendamente este termo pq generaliza um bando de babaca) não é quem ouve apenas Chico e Elis (que, aliás, também são divinos!), mas quem busca sua felicidade e considera justa toda forma de AMOR, quem respeita e quem vive... vive intensamente, pula e se descabela por seu amor aos 62 como Mick Jagger!

 

E Viva Rolling Stones!



Escrito por Semíramis Baudelaire às 18h08
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Você ainda não entendeu?

 

Veja então:

 

 

E ouça: DEAD FLOWERS!

 

By: Semíramis Corsi! 



Escrito por Semíramis Baudelaire às 18h08
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...

Voltei para o blog... recebi recentemente um convite do Jornal A Gazeta de S. S. Paraíso/MG para ser colunista... por isso voltei ao blog: vou publicar aqui os artigos que escrevo para o jornal... sou um ser-humano muito normal, só escrevo sob pressão, datas e horários marcados, rs!

...



Escrito por Semíramis Baudelaire às 10h47
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Sobre rótulos e códigos de barra

 

Na atual sociedade pós-moderna vivenciamos cada dia mais a busca do indivíduo em se diferenciar e se encaixar em grupos. A cada momento nos deparamos com o retorno da vida em tribos, mas agora tribos urbanas. Basta andar pelas ruas de uma grande metrópole, ou até mesmo em nossa pequena cidade, para nos depararmos com pessoas até algum tempo tidas como “diferentes”, mas que cada dia que passa se tornam mais comuns.

Gerações passam e com elas passam os rótulos e estilos, mas de qualquer forma novas tendências surgem, levando as pessoas a se individualizarem e a procurarem por uma identidade.

Durante a adolescência é normal que procuremos por isso, ou mesmo busquemos apenas por um estilo que se assemelhe a um grupo e se distancie totalmente de outro. Eu mesma já tive meus momentos de neo-hippie aos 14 anos, grunge aos 16, gótica aos 18 e etc, etc, etc. Hoje em dia sou totalmente viciada nas personagens do cartunista Angeli, principalmente aquelas dos anos 80, da saudosa Revista Chiclete com Banana.[1] É hilário como já na década de 80 esse cartunista percebia com inteligência as pessoas divididas em tribos e nos trazia personagens inesquecíveis como Meia Oito (um marxista que não perde a esperança), Bob Cuspe (um punk enojado e sarcástico, que cospe no mundo por rejeitar toda miséria que lhe dão para engolir) e Wood e Stook (dois antigos hippies que não querem que o sonho acabe jamais).

Beatniks, Punks, Clubbers, Pagodeiros, Alternativos. Mas será que a gente realmente precisa disso?

O que percebo é estamos sempre insistindo em arrumar um encaixe para nossas idéias e gostos, mesmo que, muitas vezes, eles não venham da gente.

Hoje você idolatra deuses indianos, acende incensos e coloca flores no cabelo, amanhã vai a uma rave e dança seu psy a noite toda. E o mundo segue assim, dividido em rótulos que nos são impostos. O tempo passa e você contará para seus filhos estas passagens engraçadas. Hoje eu já morro de rir quando me recordo das minhas calças rasgadas, foi maravilhoso o dia em que eu consegui rasgar a primeira, aprendi a fazer o desfiado e tive coragem de vesti-la. Rio também da camiseta preta imensa do Nirvana por baixo de uma blusa de flanela que mesmo velha continua guardada no meu guarda-roupa, eu disse blusa imensa porque naquela época era difícil achar camisetas de rock em Paraíso, só tinha para meninos e em tamanho G, mesmo assim eu comprava e usava aquele camisão que me deixava uma balofa, mas eu me achava linda com meu ídolo estampado no peito! Foi incrível quando o dono da loja conseguiu trazer uma camiseta do The Doors para mim, eu pulei de alegria, pois era difícil de se encontrar naquela época.

A verdade é que hoje acho tudo aquilo uma bobeira, porém reparo que era uma necessidade da minha adolescência e que algumas pessoas têm ainda depois de adultas. Então me pergunto, e daí?

Por mais que a gente considere tudo isso banal, que não devemos viver enclausurados em nossas próprias tribos, que achemos que realmente não precisamos disso ou ainda que “conhecer o novo é sempre bom”, devemos respeitar quem pensa e usa do contrário.

Nossa atualidade repleta de comportamentos alternativos e conflituosos, decorrentes da pouca tolerância diante do outro, considerado diferente, deve ser repensada.

Antes de taxar alguém de tolo, pense que para ele isso talvez seja importante e como escreveu o sociólogo Max Weber: “Nossos ideais, mesmo que nos movam com o mais puro vigor, são apenas formados na luta com outros ideais que são tão sagrados para os outros quanto os nossos para nós.”

 

Semíramis Corsi



[1] A Revista Chiclete com Banana recebeu recentemente uma antologia que você pode encontrar na banca de jornal em 16 fascículos. Também alguns de seus textos e charges foram publicados em livros pela Editora L&PM Pocket.



Escrito por Semíramis Baudelaire às 10h45
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The Medéia’s Return

Sobre o Paradeiro de Medéia durante 2006

 

É, depois de quase um ano sem postar neste blog resolvi voltar. Por quê parou? Por quê voltar?

Parei por várias razões, a primeira foi o fim do Jornal Diário, onde saía minha coluna Parabólica e as linhas que compunham este blog. Fiquei triste, chateada, desempolgada... A segunda e maior razão foi meu mestrado: ou eu paria a Dissertação ou ela me sufocava. Tirei ums dias e me entreguei ao Apuleio de corpo e alma, muito mais alma do que corpo... sim, porque precisei muito mais compreender as razões de um ser do século II d.C. com meu coração do que com minhas mãos sob o teclado. Mas foi M.A.R.A.V.I.L.H.O.S.O. Ver a Dissertação pronta, a felicidade da minha mãe, da minha tia, da minha orientadora e acima de tudo: a minha!

Pra relaxar me entreguei a um projeto novo, pelo menos pra mim, escrever uma peça de teatro. SAIU, junto coma Dissertação e tudo... Eu, Bruno e Thiago conseguimos mandar pro papel uma tragicomédia da década de 70 na pacata Paraíso. Só falta agora ela sair do papel! Dale Soledad Ortega Flores, minha personagem... uma putana que paga de beata!

Por fim faltava fazer em 2006 algo que doía e parecia não sair: me entregar a uma paixão destas que dão saudade e esquecer um amor que tinha se transformado em problema. Foi aí que não mais que de repente, no incrível 18 de agosto (dia que persegue!) me aparece um beijo do Douglas. Que bom! Um amor pra viver!

Aulas, poucas... mas intensas... no começo de 2006 o GAVE (Grupo de Apoio ao vestibulando), onde leciono, me deixou louca, eram 66 alunos, mais de 120 olhos sob minha pessoa, mas valeu a experiência, valeu pelos bons alunos e um em especial! A UNIESP (União das Escolas Superiores Paraíso) como sempre me deu sabores e dissabores, mas no fim de 2006 um proposta legal pra começar 2007 bem. Ou não!

Fogo ao infinito. Recebi em 2006 a homenagem do Dani, que fez um clip lindo com fotos minhas, com direito a cinema, concurso e tudo mais!

E o Réveillon... um foi ótimo passar pela linda Poços de Caldas, ainda moro lá! Mas Sampa não me deixa sonhar! Muitas viagens, muita Avenida Paulista acompanhada de pessoas amadas.

Tanta coisa boa movimentou demais meu 2006 e não deu tempo de voltar a estas páginas. Mas pra quê voltar agora?

Voltei porque lendo os comentários nas postagens antigas senti que eu preciso disso, preciso de críticas de todas as formas, preciso de holofotes mesmo que para desastrosas apresentações onde faltam música e tenho pittis incríveis na cochia! Preciso dos comentários do Paulo, do Bruno, das leituras do Renato, do Matt, do Dani e de todas as pessoas incríveis que passam por aqui!

 

Espero que 2007 seja um ano de mais realizações que 2006 pra todos meus amigos e colegas! Espero que seja regado de livros, de teatros, de paradoxos (sim, essas crises movimentam a vida!), de modernidade... de letras e mais letras e de muita HITÓRIA!

 

Semíramis Corsi

Feliz da vida!



Escrito por Semíramis Baudelaire às 09h53
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Para que serve a História?

 

“Para quem não tem a alma pequena e vil. A experiência da História é de uma grandeza que nos aniquila.”

Henri-Irinée Marrou.

 

Sempre fui encantada por História. Desde criança surgia na minha cabeça mulheres usando pesados ferros de passar roupas literalmente de ferro, homens carecas construindo maravilhas como a Esfinge egípcia, cavaleiros solitários...

Por isso cursei História. Mas, desde o primeiro ano na faculdade uma perguntava não cansava de ecoar em minha cabeça: para que serve a História? Procurando em livros didáticos temos respostas clássicas: 1) A História serve para justificar visões de mundo. 2) Com a História entende-se o passado, compreende-se o presente e faz-se projeções para o futuro. 3) A História é uma das formas de reflexão social, pois nossa sociedade é auto-reflexiva. 4) A História serve para entender o desenvolvimento das sociedades e os valores da humanidade; com ela o historiador constrói e divulga conceitos e ideologias para promover uma melhora na vida das pessoas. Podemos notar que a História, para algumas pessoas, tem um valor pragmático para seu presente.

 Definitivamente, para mim, a História não é uma bola de cristal de onde se vê erros e acertos e os copia ou exclui, até mesmo porque as condições materiais variam e a mentalidade humana as acompanha. Se a História fosse previsível, Marx, depois de tantos estudos sobre os sistemas escravista e feudal, não erraria quanto ao fim do capitalismo.

Se a História serve para reflexão? Serve claro, mas não em uma sociedade cada vez menos reflexiva, controlada pelos meios de comunicação, em uma sociedade que vive no consumismo desenfreado, na alienação e na massificação, que cai no apelo fácil de leituras superficiais e da propaganda. Se quisermos melhorias sociais, mais fácil do que estudar História e ficar atento aos acontecimentos do legislativo e do executivo, as subidas abruptas de salários e gastos miraculosos com viagens, por exemplo. 

Estudar História para divulgar conceitos e ideologias? Muito me admira Lula dizer por aí que é o novo JK. Nosso atual presidente mostra mesmo que estudou história e viu que como ele, JK também fôra um garoto pobre e batalhador. Mas se Lula construiu 50 anos em 5? Só se ele se reeleger e tentar de novo, parece que dessa vez não adiantou muito ter estudado a história e divulgado antigas ideologias, ou melhor, usado delas. Há um grande perigo em utilizar a história para justificar ideologias, o de inventar o passado conforme nossas convicções e ainda por cima, ser tendencioso e distorcê-lo a seu bel-prazer.

Mas, então para que serve a história?

A História serve para compreender que existem mudanças, continuações, rupturas, evoluções, degradações. Serve para compreender que os valores da humanidade se modificam e serve, principalmente, para permitir ao homem que exerça a função que só ele pode exercer: a da contemplação. Já dizia Leonardo da Vinci, no século XVI, que a arte serve para que admiremos o belo. A História também serve para vermos a ação humana e sua magnitude, sua beleza e degradação. A História, ainda, é uma sabedoria e a sabedoria é algo tão abstrato que não combina com esse mundo de correria e praticidade.

Semíramis Corsi

Historiadora e Professora de Literatura

                                                                                                                                                                                         



Escrito por Semíramis Baudelaire às 21h38
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O poder é podre

 

 

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada”

Humberto Gessinger

 

Acabei de assistir o filme “Carandiru” pela terceira vez. Também gosto de histórias reais, de vidas de gente de verdade. Assisto toda quinta o “Linha Direta”, o que, ao saber, levou minha Tia Regina ao susto neste último domingo.

Depois de ver aquela tragédia, decidi, pelo menos por hoje, mudar o tom desta coluna. Resolvi deixar de lado as cartas que quero mandar para amigos que a distância me separa, os poetas doentios e frustrados, músicos psicopatas e apaixonados, resumindo: não quero falar de dores de amores pequeno-burguesas e nem do mal estar da pós-modernidade, do qual sabemos não pelos mais sensíveis, mas pelos que possuem condições de falar sobre ele, porque sua presença, na verdade, está em todo mundo.

Hoje quero falar da dor de verdade, não aquela que artistas e intelectuais sentem por serem apenas sensíveis às mazelas do mundo, mas a dor na pele dos assassinos que matam por viverem em um mundo totalmente desonesto, desigual e corrupto. Da dor dos assassinados. Vamos falar de João, aquele que bem podia ser o Santo Cristo, do qual um dia cantou Renato Russo... Aquele que foi para Brasília, “falar para o presidente ajudar toda essa gente que só faz sofrer”.

Não acredito que apenas ficarmos escrevendo poesia ou lançando filmes que logo viram “cult” (Ô palavrinha chata!) porque levam à reflexão, adianta muita coisa. Sim, porque estes mesmos artistas e intelectuais que sofrem demasiadamente em livros de Sociologia ou de Poesia, em peças de teatro e CDs de MPB, são os primeiros a se renderem quando assumem o PODER. Porque a razão de toda “bandidagem”, dos assassinatos e etc. vai além da ira humana, está muito mais ligada à ambição. É um problema cíclico.

E a culpa é de quem? É aí que entram meus intelectuais e artistas tristes por verem às mazelas sociais. A culpa é destes mesmos intelectuais (e olha que alguns nem são tão intelectuais assim!) e artistas, que quando têm a chance de ocupar um cargo político ou outro qualquer que signifique poder, em geral são eles que têm esta chance, avacalham tudo, roubam, deduram e só pensam em engordar ainda mais suas barrigas já fartas e viajar por aí. A culpa é também daquele sofredor que conseguiu a duras penas ocupar um cargo de poder e trocou a confiança dos que ali o colocaram pela sua ambição. A culpa da miséria e da revolta dos bandidos do “Carandiru” é de outros bandidos: os que andam de terno e gravata, os “donos do poder” (ARGH!).

Ideais? Se um dia estes poderosos tiveram, talvez na época da Faculdade, deixaram guardados no escaninho da biblioteca. Exemplos de gente desse tipo estão por toda parte, não precisamos ir longe. Se eu serei assim? Espero nunca ocupar um cargo de poder, porque, sinceramente: a palavra que define “poder” deveria ser “podre”, palavras que formam até mesmo uma aliteração, um trocadilho, e que no fundo significam a mesma coisa.

 

Semíramis Corsi

Historiadora e Professora de Literatura

 



Escrito por Semíramis Baudelaire às 21h32
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Passion!

   

O livro: um objeto de fetiche

 

“Um livro deve ser como uma picareta diante de um mar congelado dentro de nós.”

Franz Kafka

 

Desde criança guardo uma paixão que nasceu dentro da minha própria casa. Escondida em um quartinho, que a minha mãe chamava de escritório, eu fazia as paredes da casa de minhas bonecas com livros, foi assim, brincando com eles, que acabei me apaixonando pelos mesmos e erguendo paredes que me cercarão durante a vida. Quando minha mãe trabalhava de diretora em uma escola, eu fazia das prateleiras da biblioteca os andares onde moravam minhas bonecas e os livros me serviam como o sofá, a cama e o fogão de suas casinhas imaginárias. Foram nestes mesmos andares de uma biblioteca escolar que subi devagar para hoje ter os meus próprios andares de livros, modestos ainda!

Colecionar livros é algo que causa impressão até mesmo em pessoas que também adoram livros, é muito comum algum colega entrar no quarto onde guardo os meus e exclamar “Você já leu tudo isso?!” Daí eu respondo como ouvi um dia dizer o crítico literário Antônio Cândido: “Eu já li outros vários que nem aí estão e há outros tantos que ainda lerei”.

Mas por que se coleciona livros? Para sentir sua presença, para sentir as várias presenças de vidas, de sonhos, de imaginação e criatividade humana e o trabalho intelectual de anos e anos de várias pessoas bem perto de você. O livro torna-se um companheiro, um lazer, uma fonte de conhecimento e, sim, um objeto de fetiche!

Acredito que há várias pessoas envolvidas no ato da leitura: o autor, as personagens criadas pelo autor e o leitor. Assim, quem toca no livro, toca em vários homens, homens que podem ser solitários como Harry Haller (“O lobo da estepe”), inseguros como Bentinho (“Don Casmurro”), sonhadores como Macabéa (“A hora da estrela”) ou homens que podem estar na França de Balzac, na Alemanha de Goethe, no Brasil de Guimarães Rosa, na Espanha de Cervantes, na Inglaterra de Allan Poe, na Irlanda de Joyce, ou até no mar congelado dentro de nós mesmos, como disse o escritor tcheco Franz Kafka.

São várias as histórias, várias as formas de se despertar para o mundo de outras vidas pela leitura. Através de um bom livro você pode se autodecobrir, assim apostou Monteiro Lobato e de certa forma ajudou-me muito a descobrir que era possível, por meio da leitura, encontrar meu próprio nariz... Uma das grandes obras da minha infância, e obra especial de Monteiro Lobato, chama-se “Reinações de Narizinho”, onde reunindo riquezas populares, muita fantasia e crítica ao governo de seu tempo, a menina Narizinho encontra seu lugar no mundo como eu encontrei o meu: certamente... no lugar onde estão meus livros, atrás de várias histórias, de várias pessoas e de várias vidas.

Semíramis Corsi

Historiadora e Professora de Literatura



Escrito por Semíramis Baudelaire às 22h52
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 Dom Casmurro: o tormento da dúvida e o medo da verdade 

 

O mais significativo dos romances de Machado de Assis, e um dos mais interessantes da língua portuguesa, “Dom Casmurro”, foi publicado em 1899. A obra é escrita sob a ótica do marido “traído”, o narrador-personagem Bentinho, também conhecido por Dom Casmurro por ser muito calado.

Bentinho é casado com Capitu, sua paixão desde a infância. Com ela tem um filho, Ezequiel, que recebe este nome em homenagem ao amigo de Bentinho, Ezequiel de Souza Escobar. A trama principal da obra desenrola em torno das desconfianças de Bentinho sobre uma possível traição de Capitu com Escobar.

Não se sabe ao certo se houve o adultério por parte de Capitu e Escobar, já que o narrador-personagem apresenta, no decorrer na narrativa, várias provas e contraprovas, sendo que o principal indício da traição é a semelhança física de Ezequiel com Escobar. Mas difícil ainda fica julgar Capitu se analisarmos que a única pessoa que fala na obra é Bentinho, não sendo possível ouvirmos Capitu.

O ciúme generalizado de Bentinho pela esposa toma espaço na narrativa. Ele tem ciúme do mar, quando Capitu permanece com o olhar perdido no mar. “Um vizinho, um par de valsas, qualquer homem, qualquer moço ou maduro, me enchia de terror, de desconfiança.”

Depois de anos de martírio em torno da dúvida do adultério, Bentinho resolve separar-se de Capitu. Passado alguns anos, Bentinho, já idoso, recebe a visita de seu filho Ezequiel, que quando entra na sala é a imagem e semelhança do amigo, já falecido, Escobar. Ezequiel informa-lhe que Capitu também morrera, assim como todos os familiares e amigos próximos de Bentinho. Ezequiel permanece alguns meses no Rio de Janeiro, depois parte para estudos no Oriente Médio onde morre. Após todas estas mortes, Bentinho, sozinho no mundo, resolve escrever este livro de memórias, “na tentativa de atar passado e presente, na construção e reconstrução de si mesmo”.

Esta obra fez-me pensar o seguinte: Se pudéssemos nos reportar para nosso futuro e vermos os erros que cometemos pela desconfiança de algo que talvez nem sequer aconteceu, o que mudaríamos no nosso presente? Quanta vida deixamos de viver pelo medo de ir em frente, quanto amor desperdiçado... Se pudéssemos assim fazer, talvez não estaríamos um dia velhinhos e solitários como Bentinho. Ou a questão seria: A mentira é fundamental para a manutenção das relações humanas. O homem, dentro de toda sua complexidade, necessita de um pouco de mentira para ser feliz?

Machado de Assis, um gênio do ato de dessecar a alma humana em forma de literatura, mostra-nos que tudo vai se desfazendo no crepúsculo da existência humana, pela vida vazia vão ficando lágrimas. A velhice é perpassada de amargura se não soubermos viver a juventude, só restando solidão. A perda se acentua com a consciência da invencibilidade do tempo e Bentinho perde-se em desencanto por ter um dia desconfiado demais, deixado de viver o bem pelo tormento da dúvida e medo da verdade.

 

Semíramis Corsi

Historiadora e Professora de Literatura

 



Escrito por Semíramis Baudelaire às 12h23
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Aquela sentimentalidade!!!

   

  “Escrevo-te estas mal traçadas linhas...”

Na segunda-feira logo após o meio dia, mais ou menos, um presente inusitado chegou em minha casa.

 O tal presente trata-se de duas cartas que recebi junto com vários papéis de banco, boletos, conta de água, luz, telefone, etc. Uma das cartas era de Belo Horizonte e trazia um Fanzine (publicação alternativa) de Poesias chamado “Theatro dos Fathos”, a outra era de Franca e trazia o conto “Tigrela” de Lygia Fagundes Telles. A primeira, em um envelope daqueles com marquinhas verdes e amarelas do lado, é de um rapaz que eu não conheço pessoalmente e que também não me lembro como conheci, mas com o qual troco fanzines e poemas há algum tempo. A segunda é de uma grande amiga que conheci pela Internet e que já tive o prazer de conversar pessoalmente algumas vezes.

As duas cartas me causaram uma sensação muito agradável e por isso decidi compartilhar aqui com você leitor.

Há alguns anos venho percebendo que devido à aceleração das formas de comunicação, as pessoas têm parado de escrever cartas. Imagino que tal situação chegará a um ponto em que a profissão histórica e saudosa de carteiro não existirá mais.  Tudo isso me deixa imensamente amargurada... Sim, há formas mais fáceis e rápidas, até instantâneas, de se comunicar com alguém... Mas cadê a sentimentalidade de tudo isso? Onde fica a sensação de contato com a letra, o cheiro e a forma de escrever que vem junto com a carta? No e-mail, ICQ, MSN, orkut, flog, blog é que este sentimento não está, com certeza.

Cada vez mais criamos formas de nos aproximarmos de nosso interlocutor, porém, não percebemos que cada vez mais nos tornamos distantes de atingir o seu coração. Recordo-me a sensação da espera das cartas de um namorado de São Paulo que tive aos 17 anos. Hoje também namoro um garoto que reside em São Paulo, conversamos todos os dias pelo orkut e MSN, porém nunca recebi uma carta sequer dele e também nunca enviei.

Mas não foi apenas por essa sensação de contato à distancia que estas duas cartas me emocionaram, o sentimento foi mais além porque dentro das cartas havia dois presentes raros de se ganhar atualmente: poemas e um conto!

As formas de comercialização aceleradas, impulsionando o marketing e a super propaganda que leva o indíviduo a querer aquilo que ele não precisa, também têm levado nós, humanos (?!) a perdermos a essência de nossa sentimentalidade, tão bem expressa através da literatura... “ESSA FELICIDADE SEM NOME QUE ACELERA O PULSO”, como a definiu Oscar Wilde.

Por tudo isso, hoje, decidi tirar uma hora do meu dia para escrever cartas, colocarei poemas meus e de outros autores, colocarei também contos de Machado de Assis e Lygia Fagundes Telles e colocarei ainda uma pitada da emoção contida em cada traço. Por mais que isso soe como um clichê natalino, é isso que hoje vou fazer. Vou espalhar literatura para meus amigos queridos.

 

Semíramis Corsi

Historiadora e Professora de Literatura

 



Escrito por Semíramis Baudelaire às 10h54
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O quanto dói!

Renato Russo e a dor de estar vivo

 

Em 1996 morria Renato Russo. Eu e mais uma verdadeira legião de pessoas em todo Brasil ficávamos órfãos de um grande ídolo. Mas por que Renato, o depressivo, melancólico e rebelde homem, que foi, comoveu e ainda comove tanta gente?

Renato era um poeta da existência, da autodescoberta e autoreflexão. A maior parte de suas letras fala sobre a busca de uma identidade, sobre ética e dores de amor. E quem é que nunca sofreu por amor? Quem é que não se descobre a cada novo amanhecer? Todos nós estamos em eterna busca de nós mesmos e ele cantou coisas que nos fazem refletir sobre nossas vidas.

Renato Russo estava totalmente envolvido no mundo em que vivemos e como bom artista sofria demasiadamente por compreender o que se passa a sua volta. Aliás, é por isso que muitos intelectuais e artistas se entregam à própria morte, por sofrerem ao compreenderem a hipocrisia e maldade que nos rodeia. Mas “vamos celebrar a hipocrisia, vamos celebrar nossa vaidade” (“Perfeição”).

Antes de morrer Renato revelou a mãe que só foi feliz na infância, mesmo assim ele ousava cantar “quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender: Que o que aconteceu ainda está por vir, e o futuro não é mais como era antigamente” (“Índios”).

Renato sofreu por ver as mazelas do Brasil e talvez a morte foi o melhor lugar, ele não agüentaria calado os atuais escândalos em nosso país. E então Renato berraria: “Que país é esse? Sujeira pra todo lado, ninguém respeita a constituição”. (“Que país é este”).

Renato também não agüentou a solidão, que ele teorizou como o “mal do século XX” (“Esperando por mim”). Sim, nós em meio à confusão do dia-a-dia estamos com todos e não estamos com ninguém. Isso era sentido, sofrido e passado para suas letras.

A rapidez que as coisas acontecem atualmente, levando até os relacionamentos a serem descartáveis também é lembrada (“Clarisse”). Esperança que tudo pode mudar? Que as pessoas serão um dia melhores, menos egoístas e fúteis? Não, Renato não tinha esperança e falou que “ter esperança é hipocrisia, a felicidade é uma mentira, e a mentira é salvação” (“Natália”).

Mas Renato era humano e como todos nós se contradizia e dizia que “quem acredita sempre alcança” (“Mais uma vez”), já que “o infinito é realmente um dos deuses mais lindos” (“Quase sem querer”). Por isso “é preciso acreditar em um novo dia, na nossa grande geração perdida” (“Natália”).

E, como cada um de nós, Renato se metamorfoseava, “experimentou várias coisas, de heroína a Jesus”. Citou de trechos da bíblia (“Se fiquei esperando meu amor passar”) a trechos do polêmico Oscar Wilde (“Soul Parsifal”).

E sua vida permanece aberta em suas canções, levando-nos a refletir sobre as nossas próprias. Renato nos deixou no mais alto volume um berro de agonia. Dói estar vivo? E o que você faz para apaziguar esta dor?

 

Semíramis Corsi

 



Escrito por Semíramis Baudelaire às 08h49
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A Antipoesia e o Sofrimento do “Poeta do Hediondo”

 

Antes de Augusto dos Anjos (1884-1914) a poesia brasileira era formal, dentro dos padrões da beleza das palavras. Foi ele, o poeta do hediondo, homem raquítico e tísico que introduziu reflexos de Baudelaire na nossa literatura, com uma pitada de Rimbaud e Edgar Allan Poe. Augusto empregou termos considerados baixos e rompeu com o uso do sentido de poético e antipoético.

Foi ele que ousou usar termos como verme, cadáver, bocas necrófagas, putrefação, escarro, vômito, etc. Parece que como o compositor brasileiro Renato Russo, e outros tantos artistas que bem compreendem a vida, Augusto sentia mesmo era uma enorme dor por ver a desumanização que é o mundo dos humanos. Assim, em suas poesias ele falava na teoria da Evolução das Espécies de Darwin, da larva evoluíamos para o ser humano e o resultado: Nenhum, tornávamos, para ele, cada vez piores, mais egoístas e hipócritas.

Totalmente autobiográfica, sua obra fala da dor existencial, explicada, em parte, pelo drama que vivera quando sua mãe estava grávida dele e se chocou com o falecimento de um irmão. Essa comoção forte quando Augusto estava ainda no útero da mãe, talvez explique os distúrbios evidentes em seu sistema nervoso, sua sensibilidade doentia, tiques e fobias, levados para sua poesia em forma de uma preocupação constante com a morte.

Mas, o mais interessante de notar, motivo que me levou a escrever este artigo, é como Augusto é um ídolo para alguns jovens da atualidade. Nas minhas aulas de literatura os alunos buscam sentar nas primeiras cadeiras quando vou falar desse poeta. É impressionante como muitos jovens trazem seus poemas decorados. Ecoa-me a voz do jovem ator paraisense Danilo Marcelino recitando poemas de Augusto em suas apresentações e da minha jovem aluna Camila Rodrigues declamando “Versos Íntimos” para seus colegas.

Que bom seria se, a exemplo deles, todo jovem que lê apenas coisas do tipo “Paulo Coelho” se interessasse mais por Augusto e sua densidade psicológica. Mas ao mesmo tempo isso me assusta um pouco.

Augusto falava de dores e desesperanças e não podemos fechar os olhos para nossas dificuldades econômicas e sociais. Somos o maior país em desigualdade social, somos a maior concentração fundiária do planeta, um dos maiores países em analfabetismo, são raros os nossos jovens que conseguem entrar em uma universidade e mais raros ainda aqueles que conseguem ter acesso a uma universidade pública, gratuita e de qualidade e mesmo com tudo isso, vivemos o calor da era da futilidade, compramos o desnecessário, somos altamente vaidosos e nos preocupamos com coisas inúteis como a vida alheia.

Será que é à toa a escolha de nossos jovens pela poesia de Augusto dos Anjos, o poeta pessimista, o filósofo que não acreditava em Deus, aquele que achava que é ao verme que retornaremos e não ao paraíso celestial?

Não, com certeza não é. Isso demonstra a descrença da juventude e uma necessidade de mudança interior e social rápida.

 

Semíramis Corsi

 



Escrito por Semíramis Baudelaire às 10h24
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Rimbaud: traficante de poemas de amor

“Prefiro viver dez anos a mil, que mil anos a dez”. Cazuza                                             

 

Arthur Rimbaud (1854-1891) tinha apenas 17 anos quando conheceu um dos maiores poetas franceses da época, Paul Verlaine, este foi percussor do movimento simbolista e se encantou com os poemas que o jovem lhe enviava da cidade de Charleville, interior da França. Então trouxe Rimbaud para Paris.

Verlaine não acreditou que aqueles poemas tinham sido escritos por uma criança ainda. Rimbaud contrariava tudo que falava a Teoria do Determinismo Social: era um jovem estudante secundarista quando foi reconhecido como um dos maiores poetas franceses, era do interior, morava no campo.

Com Verlaine, além de uma grande amizade viveu um louco caso de amor, talvez um dos mais belos de toda história, pois está envolto em poesia e na loucura que caminha lado a lado com as grandes paixões. O romance costumava acabar na delegacia de polícia (cenas que inspiraram o filme “Eclipse de uma paixão”, onde Rimbaud é interpretado por Leonardo Di Caprio).

A poesia que se traduz da química entre o casal Rimbaud-Verlaine é fascinante quando pintada aos nossos olhos, a ponto de acharmos estranho que tenha chocado outros artistas da época como sabemos que chocou.

Fico desconcertada ao saber que Rimbaud compôs dos 15 aos 19 anos poemas visionários, estranhos, simbólicos, existencialistas. Rimbaud contrariou todos os filhinhos de papai que somos nós. Na fase de nossas vidas que pensamos apenas em futilidades adolescentes, Rimbaud pensava em arte.

Aos 20 anos Rimbaud estranhamente abandona a poesia e sai por viagens pelo mundo, vai para África onde, segundo a lenda, viveu do comércio de escravos e armas. Morre aos 37 anos de câncer, na África.

O porquê de Rimbaud ter largado a poesia quando se encontrava no auge de sua produção ainda é um mistério. Isabelle, a irmã do poeta diz-nos que certa vez ele lhe revelou que ficara objetivo demais e desapaixonado. Características indignas de um escritor e próprias de um comerciante.

Mas talvez o motivo deste abandono seja o desejo de permanecer jovem, de ser lembrado como um garoto rebelde que escandalizara a Academia Francesa de Letras com sua maturidade poética e sua rebeldia latente.

Talvez seja este também o motivo que Rimbaud fascina tanto alguns rockeiros: Jim Morrison, entre outras canções, fez uma especialmente sobre Rimbaud: é “Wild Child”. A poetisa e rockeira Patti Smith confirma sua influencia rimbaudiana. Além dos brasileiros Renato Russo e Cazuza, que citam Rimbaud em algumas canções. Aliás, foi por meio da canção “Eduardo e Mônica” da Legião Urbana que aos 12 anos ouvi pela primeira vez o nome de Rimbaud.

Mais do que a paixão por poesia, Rimbaud e estes rockeiros têm em comum a rebeldia, a fúria, a angústia e a precocidade. E todos, como cantou Cazuza, preferiram viver dez anos a mil, que mil anos a dez, foram intensos enquanto duraram!

 

Semíramis Corsi



Escrito por Semíramis Baudelaire às 09h31
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Quando o estranho é você: “O Alienista” de Machado de Assis

 

“As pessoas são estranhas quando você é um estranho”

Jim Morrison – The Doors

 

Depois da morte, a loucura é o tema, que acredito eu, mais intriga a mente humana. Diversas obras de literatura trabalham tal tema: Erasmo de Rotterdam, Albert Camus, Gogol, Dostoievski, Machado de Assis, etc.

Machado de Assis caracteriza-se como um dos grandes nomes da Literatura Universal. Bem o definiu o poeta Drummond em “A um bruxo com amor”, colocando o seguinte: “Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro”. Suas obras são densamente psicológicas e suas narrativas abordam temas universais e inquietantes.

No conto “O Alienista”, Machado de Assis aborda com humor, ironia e crítica apurada o conflito entre razão e loucura. O protagonista é Simão Bacamarte, importante médico alienista, uma psiquiatra que busca estabelecer os limites entre loucura e sanidade. Seu nome, Simão, significa macaco e Bacamarte significa arma de fogo, ou seja, parece que Machado de Assis quis com isso representar um ser irracional armado.

Bacamarte se estabelece na pequena cidade carioca de Itaguaí, onde cuida de um hospital, a Casa Verde. Em principio considera louco e interna todas aquelas pessoas que fogem do padrão mediano, que não se enquadram em estruturas pré-moldadas. Os primeiros casos internados no seu hospital são aceitos enquanto anormais pela sociedade de Itaguaí. Eram loucos por amor, pessoas que tinham mania de grandeza e fanáticos religiosos. No decorrer do conto, o médico vai perdendo a noção dos limites que separa sanidade e loucura e passa a internar pessoas que possuem apenas caprichos particulares.

Assim, a trama coloca, entre outros pontos importantes, uma questão polêmica: Quem é normal? O que é ser normal? É seguir regras de costumes e bons modos? Mas quem estabelece estas regras? Por fim, o médico decide liberar todos os internados e encerra-se sozinho na Casa Verde, considerando-se o verdadeiro louco, uma vez que considera todos a sua volta enquanto tal.

Por meio deste conto podemos refletir sobre a sociedade moderna, em que as pessoas preocupam-se o tempo todo em taxar umas as outras. Temos que aceitar que a atualidade apresenta-nos repleta de comportamentos alternativos e conflituosos. A falta de tolerância não é algo que deveria permanecer em meio ao bombardeamento de estilos, crenças, opções sexuais, etc.

Por isso, em meio ao turbilhão pós-moderno, antes de classificar o comportamento de alguém, repare melhor a sua volta, porque talvez o estranho, como disse Jim Morrison no calor dos anos 60 e o grande Machado de Assis neste conto do século XIX, pode ser você. É, prezado leitor, quando todos se parecem estranhos, é hora de rever nossos conceitos...

 

Semíramis Corsi

 



Escrito por Semíramis Baudelaire às 09h23
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